AQUENDA

Ei moço
Abre bem os teus ouvidos
contenha os teus instintos e me escuta
Não vai nessa de chamar uma mulher
De vagabunda
Cai fora e deixa ela em paz
Engole esse assobio
esse viço de bicho viril
e vaza, rapaz
que ser mulher nunca foi fácil
sofrer privações e bombardeios
vindos de todos os lados
Ser subjugada
tida como frágil
incapaz dependente e limitada
a da cama mesa e banho
do lar e requintada
Definida pelo corpo
Escolhida pelo corpo
Banida pelo corpo
Assediada e humilhada
Desde quando uma estria é motivo de risada?
Ser vítima e ainda ser culpada?

Sou mulher fêmea
Aprendi que tenho meus poderes
Minhas forças meus queres
Que sou livre e que não, eu não sou culpada
Por sofrer agressão, pela mão que você me passa
Não, eu não sou culpada
Pelo que se tenta naturalizar
na rua, no trabalho, na escola
na universidade e no lar
Não sou uma roupa, não sou uma cor
não sou uma fruta
Não sou um objeto qualquer que você pega e usa

Sou a menina de 16 anos
Aquela que por 33 homens foi estuprada
a empregada assediada pelo patrão
a esposa esfaqueada por várias mãos
a menina que morreu de aborto
num quarto dos fundos de qualquer casa
a puta espancada, a namorada vigiada,
a estudante perseguida, a profissional humilhada
aquela de quem se tirou a voz feita de refém
Eu sou todas elas e vocês, mulheres, também

Luna Vitrolira